Se a sua loja ainda roda Magento 1, você está operando uma plataforma sem patches de segurança desde 30 de junho de 2020. Não é alarmismo: a Adobe deixou de publicar correções de qualidade, atualizações de segurança e suporte técnico naquela data, e atacantes sabem disso. A campanha Magecart "Cardbleed", documentada pela Sansec, infectou 2.806 lojas Magento 1 em poucos dias justamente explorando o fato de a plataforma estar em end-of-life.
Em mais de 14 anos trabalhando com Magento, aprendi uma coisa que todo dono de loja precisa entender antes de começar: migrar de Magento 1 para Magento 2 não é um upgrade. É uma re-plataforma. O banco de dados pode ser transferido com o Data Migration Tool, mas código, extensões e tema precisam ser reconstruídos do zero. E, se você não cuidar das URLs e dos redirecionamentos 301, pode perder anos de SEO em uma única virada de chave.
Este guia cobre o ciclo completo: por que migrar, como funciona o Data Migration Tool (modos settings, data e delta), o que migra e o que exige retrabalho, como preservar o ranqueamento com redirects 301, a escolha de tema (Luma, Hyvä, PWA) e a decisão entre Adobe Commerce e Magento Open Source. Para o que vem depois do go-live, ele se conecta diretamente aos meus guias de SEO Técnico para Magento 2 e de Performance e Core Web Vitals.
Fim de vida do Magento 1: o relógio parou em 30/06/2020
O suporte ao Magento 1 (tanto Magento Commerce 1 quanto Magento Open Source 1) terminou oficialmente em 30 de junho de 2020. A Adobe anunciou o fim de vida ainda em setembro de 2018 — cerca de 18 meses de antecedência — exatamente para dar tempo de re-plataforma aos lojistas. Desde a data de EOL, a Adobe não publica mais patches de segurança, correções de qualidade nem oferece suporte técnico para o Magento 1.
Na prática, cada vulnerabilidade descoberta após junho de 2020 permanece aberta para sempre na sua loja. Não é um risco teórico. A pesquisa da Sansec sobre a campanha Cardbleed mostrou o que acontece quando milhares de lojas ficam sem patches:
Segundo a Sansec, a campanha automatizada Cardbleed infectou 2.806 lojas Magento 1 (cerca de 3% da base instalada) em poucos dias — começando com 10 lojas na sexta, saltando para 1.058 no sábado, 603 no domingo e 233 na segunda. À época, aproximadamente 95 mil lojas Magento 1 ainda operavam. A própria empresa descreve este episódio, em suas palavras, como "by far the largest one that Sansec has identified since it started monitoring in 2015".
Fonte: Sansec
O problema de conformidade PCI DSS
Além do risco direto de roubo de dados de cartão, rodar Magento 1 cria um problema de conformidade PCI DSS. A política oficial de ciclo de vida da Adobe Commerce não usa uma frase genérica para qualquer software fora de suporte — ela vincula a perda de garantia de conformidade a combinações específicas de release com versões de PHP em fim de vida (por exemplo, lojas em 2.4.6 que continuam em PHP 8.1, ou nas versões 2.4.4 e 2.4.5, presas a PHP que já chegou ao fim de vida). O raciocínio, porém, se aplica com força total ao M1: uma loja sem patches desde 30/06/2020, rodando sobre PHP igualmente morto, não tem como sustentar conformidade PCI, o que pode resultar em:
- Multas: aplicadas pelas bandeiras e pelo adquirente.
- Perda da capacidade de processar cartões: o adquirente pode suspender o merchant account.
- Responsabilidade ampliada: em caso de vazamento, o lojista responde por não manter o ambiente conforme.
De acordo com a política de ciclo de vida da Adobe, para configurações fora de suporte — como uma release atrelada a uma versão de PHP que chegou ao fim de vida — a conformidade PCI não pode ser garantida. A documentação afirma, por exemplo, que "PCI compliance cannot be guaranteed for merchants running version 2.4.6 who continue to use PHP 8.1".
Fonte: Adobe Experience League
Minha recomendação é direta: se você ainda processa cartões em Magento 1, trate a migração como prioridade máxima, não como projeto de "quando der". E, já que vai mexer na fundação, vale acoplar ao projeto um trabalho sério de segurança e hardening do Magento 2 desde o primeiro dia da nova loja.
Por que migrar: segurança, performance, recursos modernos e suporte
Segurança é o motivo número um, mas não é o único. Migrar para Magento 2 / Adobe Commerce coloca a loja sobre uma stack moderna, com suporte ativo e recursos nativos que no Magento 1 só existiam via extensões frágeis. A versão atual, Adobe Commerce / Magento Open Source 2.4.8, exige uma stack completamente diferente da do M1:
| Componente | Requisito em 2.4.8 |
|---|---|
| PHP | 8.3 ou 8.4 (8.1 e 8.2 não suportados) |
| Motor de busca | OpenSearch 2.19 (preferido); Elasticsearch 8.17 ainda suportado on-premises |
| Banco de dados | MySQL 8.4 / MariaDB 11.4 |
| Cache em memória | Valkey 8 (Redis 7.2 nas versões anteriores) |
| Composer | 2.9.3+ |
| Fila de mensagens | RabbitMQ 4.1 |
| Varnish | 7.6 |
Vale destacar uma mudança recente que pega muita gente de surpresa: nas versões mais novas o Valkey (fork open source do Redis, criado após a mudança de licença do Redis) passou a ser o backend de cache e sessão de referência, ao lado do Redis, que segue presente em patches anteriores. A Adobe dá suporte apenas às combinações de requisitos listadas na documentação oficial de system requirements. Rodar fora dessas combinações — ou com dependências como PHP/MySQL já em fim de vida — coloca você na mesma situação de risco do M1.
Janela de suporte previsível
Diferente do M1, o ciclo de vida do Adobe Commerce oferece uma janela de três anos de suporte (patches de qualidade e segurança) a partir do General Availability, com um ano adicional de extended support, sem custo, para a versão 2.4.6. Isso permite planejar atualizações com previsibilidade, algo impossível em uma plataforma já morta. Importante: a Adobe não fornece correções para dependências de terceiros (PHP, MySQL etc.) que cheguem ao fim de vida dentro dessa janela — por isso manter a stack atualizada continua sendo responsabilidade do lojista.
Recursos nativos e performance
O Magento 2 traz, de fábrica, arquitetura de cache em camadas (full page cache nativo, Varnish), indexadores assíncronos, fila de mensagens (RabbitMQ) para processamento em background e APIs robustas (REST e GraphQL) que viabilizam storefronts headless. Recursos que no M1 dependiam de dezenas de módulos de terceiros passam a ser parte do core, reduzindo superfície de bug e custo de manutenção. Essa base moderna também é o que torna viável atingir bons números de Core Web Vitals — algo praticamente inalcançável no M1.
Conforme a documentação de system requirements da Adobe, o Adobe Commerce / Magento Open Source 2.4.8 exige PHP 8.3 ou 8.4, adota o OpenSearch 2.19 como motor de busca preferido (com Elasticsearch 8.17 ainda suportado on-premises), roda sobre MySQL 8.4 / MariaDB 11.4, usa Composer 2.9.3+, RabbitMQ 4.1 e tem o Valkey 8 como solução de cache de referência.
Fonte: Adobe Experience League
Magento 2 não é um "upgrade": é re-plataforma
Este é o ponto que mais gera frustração em projetos mal planejados. A arquitetura do Magento 2 é completamente diferente da do Magento 1. Não existe um botão de "atualizar". Você instala uma loja Magento 2 nova e transfere os dados do banco; tudo o que é código, extensão e tema precisa ser refeito.
A documentação oficial de planejamento (create-plan) é explícita ao instruir que o primeiro passo é revisar as extensões do site atual e migrar o código das extensões do Magento 1 para o Magento 2, adaptando o código para compatibilidade com M2 e fazendo o mapeamento de estruturas de dados customizadas.
O que precisa ser reconstruído
- Código customizado: módulos próprios do M1 não rodam no M2; precisam ser portados para a nova arquitetura (DI, áreas, namespaces, layout XML do M2).
- Extensões de terceiros: não há compatibilidade. É preciso encontrar o equivalente M2 no Marketplace ou reconstruir a funcionalidade.
- Tema e storefront: o Data Migration Tool NÃO migra tema, design nem storefront. O frontend é construído do zero (Luma, Hyvä, PWA ou custom).
- Integrações: conectores de ERP, gateways, marketplaces e emissão fiscal precisam ser reimplementados sobre as APIs do M2.
O que isso significa na prática
Na minha experiência, lojistas que tratam a migração como "copiar dados e está pronto" descobrem, no meio do caminho, que precisam de um projeto de desenvolvimento frontend completo e de re-implementação de cada integração. Por isso eu sempre separo o orçamento em quatro frentes distintas:
- Migração de dados (Data Migration Tool — catálogo, clientes, pedidos, configs).
- Re-desenvolvimento de tema e frontend (reconstrução completa).
- Re-implementação de extensões (equivalentes M2 ou código novo).
- Re-implementação de integrações — pagamento, antifraude e, no Brasil, a integração com ERP e emissão de NF-e, que praticamente nunca tem equivalente M1 reaproveitável.
Encarar a migração como re-plataforma desde o primeiro dia evita estouro de prazo e orçamento. É mais honesto chamar o projeto de "construção de uma nova loja que herda os dados da antiga" do que de "upgrade".
Data Migration Tool: modos settings, data e delta
O Data Migration Tool é a ferramenta oficial da Adobe que transfere os dados do banco do Magento 1 para o Magento 2. Regra de ouro: use sempre a mesma versão liberada do Magento 2 e do Data Migration Tool (para Magento 2.x.y, use Data Migration Tool 2.x.y). A instalação é via Composer:
composer require magento/data-migration-tool:<version>A ferramenta opera em três modos, que a Adobe recomenda fortemente executar nesta ordem: settings → data → delta (changes). O argumento de caminho do config.xml é obrigatório em todos eles:
| Modo | Comando | O que migra |
|---|---|---|
| settings | bin/magento migrate:settings {<path to config.xml>} | Configuração do sistema e settings de websites/lojas |
| data | bin/magento migrate:data {<path to config.xml>} | Ativos do banco em massa (catálogo, clientes, pedidos) |
| delta | bin/magento migrate:delta {<path to config.xml>} | Mudanças incrementais desde a última execução (novos clientes/pedidos) |
A sintaxe geral aceita duas flags importantes:
bin/magento migrate:<mode> [-r|--reset] [-a|--auto] {<path to config.xml>}- -r | --reset: reinicia a migração do começo. Use em ambiente de testes/dry run.
- -a | --auto: impede a migração de parar quando encontra erros de integrity check.
Os três estágios internos de cada step
Dentro de cada step, a ferramenta executa três estágios, sempre nesta ordem:
- Integrity Check: compara nomes e tipos de campos das tabelas para verificar compatibilidade entre as estruturas M1 e M2.
- Data Transfer: transfere os dados tabela por tabela.
- Volume Check: compara a quantidade de registros entre as tabelas para confirmar que a transferência foi bem-sucedida.
A ferramenta salva o progresso conforme executa, o que permite retomar de onde parou em vez de recomeçar uma migração de horas.
Segundo a documentação da Adobe, o Data Migration Tool foi projetado para transferir os dados nesta sequência — settings, data e, por último, as mudanças incrementais (delta) — e a própria Adobe recomenda fortemente respeitar essa ordem. O caminho absoluto para o
Fonte: Adobe Experience Leagueconfig.xmlé um argumento obrigatório em todos os comandos.
Configuração e arquivos de mapeamento (config.xml e map.xml)
Antes de rodar qualquer comando, é preciso configurar a ferramenta. O arquivo primário é o config.xml.dist: ele especifica as conexões de banco do M1 e do M2, a configuração de steps e os links para os arquivos de mapeamento. O map.xml.dist é o arquivo de mapeamento exigido pelo map step.
Localização por edição
Os arquivos ficam dentro de vendor/magento/data-migration-tool/etc/, em subdiretórios que dependem da edição de origem e destino:
| Cenário | Diretório |
|---|---|
| Open Source → Open Source | etc/opensource-to-opensource |
| Open Source → Adobe Commerce | etc/opensource-to-commerce |
| Adobe Commerce → Adobe Commerce | etc/commerce-to-commerce |
Cada um desses diretórios ainda tem subpastas por versão (por exemplo, 1.9.4.5-to-2.4.x), refletindo o par exato de versões de origem e destino. Confira sempre que o diretório usado bate com as versões reais do seu M1 e do seu M2.
Como configurar
O fluxo básico é copiar o arquivo de distribuição e editar com seus dados:
cp config.xml.dist config.xmlVocê pode, alternativamente, copiar para um módulo customizado em app/code/Vendor/Migration/etc/<edition>/<version>/config.xml — recomendado para versionar suas customizações de mapeamento no Git. No config.xml é preciso informar:
- Banco de origem (M1): host, nome do banco e usuário.
- Banco de destino (M2): host, nome do banco e usuário.
- Encryption key: a chave de criptografia que está no
app/etc/local.xmldo Magento 1 (dentro da tag<key>), informada na tag<crypt_key>do config.xml.
Por que o mapeamento importa
O map.xml resolve as diferenças entre as estruturas de tabela do M1 e do M2 — renomeações de campos, campos que não devem ser migrados e tabelas ignoradas. Quando o Integrity Check acusa incompatibilidade, é no arquivo de mapeamento que você ajusta as regras. Para extensões que criaram tabelas próprias no M1, esse trabalho é mais profundo, como veremos na seção de extensões.
Conforme a documentação da Adobe, o
Fonte: Adobe Experience Leagueconfig.xml.disté o arquivo principal que define as configurações de banco do Magento 1 e do Magento 2, a configuração de steps e os links para os arquivos de mapeamento; já omap.xml.disté o arquivo de mapeamento exigido pelo map step.
O que migra automaticamente e o que exige retrabalho manual
Entender exatamente o que a ferramenta cobre — e o que ela não cobre — é o que separa uma migração tranquila de uma cheia de surpresas no go-live. O modo data migra em massa os dados de catálogo, clientes, pedidos e configurações de loja. Avaliações e demais entidades de banco também são transferidas pela ferramenta.
| Item | Migra automaticamente? | Como tratar |
|---|---|---|
| Catálogo (produtos, categorias, atributos) | Sim (modo data) | Validar via Volume Check |
| Clientes | Sim (data + delta) | Novos clientes no delta |
| Pedidos | Sim (data + delta) | Novos pedidos no delta |
| Avaliações | Sim | Conferir após transferência |
| Configurações de loja | Sim (modo settings) | Revisar configs incompatíveis |
| Arquivos de mídia | Não | Cópia manual |
| Código / extensões | Não | Portar / reconstruir |
| Tema / storefront | Não | Reconstruir do zero |
Cópia manual de mídia
Os arquivos de mídia não são migrados pela ferramenta. Eles precisam ser copiados manualmente do diretório de mídia do M1 para o do M2. Em lojas com catálogos grandes, planeje essa transferência com cuidado (rsync, janela de banda) porque pode levar horas. Um comando típico:
rsync -avz magento1-root/media/ magento2-root/pub/media/A regra de ouro: não crie entidades novas no M2
Um erro clássico: a equipe instala o M2 e começa a cadastrar produtos, categorias ou atributos "para adiantar". A documentação alerta que, se você testa a loja M2 e roda a migração ao mesmo tempo, podem aparecer avisos de Volume Check — justamente porque você criou no M2 entidades que não existem no M1. O caminho seguro é não criar novas entidades no M2 antes de concluir a migração; deixe a ferramenta popular o catálogo e só depois faça ajustes e novos cadastros.
De acordo com a documentação da Adobe, os arquivos de mídia precisam ser copiados manualmente — em suas palavras, "Copy these files manually from the
Fonte: Adobe Experience Leaguemagento1-root/mediadirectory tomagento2-root/pub/media" — pois não são transferidos pela ferramenta.
Preservar SEO: URL keys, redirects 301 e migração de URLs
Esta é a seção que mais economiza dinheiro a longo prazo. Uma migração tecnicamente perfeita que quebra as URLs destrói o ranqueamento e o tráfego orgânico que você levou anos para construir. A estratégia tem dois pilares: preservar as URL keys sempre que possível e mapear redirects 301 para tudo que mudar. Para o trabalho completo de indexação, canonical, sitemap e dados estruturados depois do cutover, vale seguir em paralelo o guia de SEO Técnico para Magento 2.
Ativar redirects 301 automáticos no Magento 2
O Magento 2 pode gerar redirects permanentes automaticamente quando você altera a URL key de um produto ou categoria. Para ativar, vá em Stores > Settings > Configuration > Catalog > Catalog > Search Engine Optimization e defina:
- Create Permanent Redirect for URLs if URL Key Changed: Yes.
Segundo a documentação da Adobe, a loja pode ser configurada para gerar automaticamente um redirecionamento permanente sempre que a URL key de um produto ou categoria muda, bastando definir a opção "Create Permanent Redirect for URLs if URL Key Changed" como "Yes".
Fonte: Adobe Experience League
As regras geradas ficam visíveis em Marketing > SEO & Search > URL Rewrites, onde você também pode criar rewrites manuais escolhendo o tipo Permanent (301) ou Temporary (302).
301 vs 302: use o código certo
| Código | Tipo | Passa sinal de canonicalização? |
|---|---|---|
| 301 (Moved Permanently) | Permanente | Sim |
| 308 (Permanent Redirect) | Permanente | Sim |
| 302 (Found) | Temporário | Não |
| 303 / 307 | Temporário | Não |
Para mudanças permanentes — que é o caso de uma migração — o Google recomenda redirect permanente server-side (301 ou 308). Os temporários (302/303/307) não são usados como sinal de canonicalização e não transferem autoridade.
O checklist do Google para mudança de URLs
- Mapeamento: prepare uma planilha de URLs antigas → novas.
- Redirects server-side: configure 301/308 das antigas para as novas.
- Sitemap: submeta o novo sitemap no Search Console.
- Change of Address: use a ferramenta se houver mudança de domínio.
- Monitoramento: acompanhe tráfego nas URLs antigas e novas.
- Cadeias curtas: redirecione direto ao destino final; se não der, mantenha a cadeia idealmente em até 3 hops e abaixo de 5 (o Googlebot segue até 10).
- Duração: mantenha os redirects pelo maior tempo possível.
O Google recomenda manter os redirects pelo maior tempo possível, geralmente por pelo menos 1 ano, para que todos os sinais sejam transferidos às novas URLs; e usar redirects permanentes server-side (301 e 308) sempre que tecnicamente viável.
Fonte: Google Search Central
Extensões e escolha de tema: Luma, Hyvä, PWA ou custom
Como vimos, extensões M1 não funcionam no M2. O primeiro passo do plano oficial é revisar as extensões do site atual e decidir, uma a uma: existe equivalente nativo no M2? Existe no Marketplace? Ou é preciso reconstruir?
Extensões com tabelas próprias
Se uma extensão M1 criou tabelas próprias no banco, há trabalho extra para migrar esses dados. É necessário:
- Rastrear as mudanças adicionando as tabelas ao
deltalog.xml. - Criar uma classe de delta estendendo
Migration\App\Step\AbstractDelta. - Adicionar a classe na seção delta do
config.xml.
Escolha de tema (frontend)
Como o storefront é reconstruído do zero, a escolha do tema define custo, performance e manutenção dos próximos anos — e impacta diretamente os Core Web Vitals:
| Opção | Stack | Quando faz sentido |
|---|---|---|
| Luma | Knockout.js / RequireJS / jQuery / LESS | Tema padrão legado; rápido de iniciar, mas pesado |
| Hyvä | Tailwind CSS + Alpine.js | Performance e DX modernas mantendo o backend M2 |
| PWA Studio | React / GraphQL (headless) | Storefront desacoplado e experiência app-like |
| Custom | Sob medida | Requisitos muito específicos |
Hyvä: o Luma que o Magento deveria ter construído
O Hyvä é um frontend para Magento 2 construído sobre Tailwind CSS e Alpine.js que elimina Knockout, RequireJS e jQuery do storefront. O próprio time o descreve como "the version of Luma we wished Magento had built", mantendo convenções como o layout.xml e reduzindo drasticamente o número de requisições e o peso de página frente ao Luma — o que costuma ser decisivo para passar nos Core Web Vitals.
O time do Hyvä define o projeto como "the version of Luma we wished Magento had built" e afirma que "got rid of the parts we would gladly live without (Knockout/Require/jQuery)".
Fonte: Hyvä Themes
PWA Studio / headless
O PWA Studio é definido pela Adobe como "a set of tools and libraries that let you develop, deploy, and maintain a PWA storefront on top of an Adobe Commerce or Magento Open Source backend". Usa arquitetura headless (frontend separado do backend via GraphQL). A storefront de referência é a Venia, com os pacotes venia-ui (componentes React), peregrine (estado/dados) e venia-concept (template de projeto). É a opção de maior custo e complexidade, justificada quando a experiência app-like e a separação total de camadas são requisitos de negócio.
Planejamento, dry run, delta e plano de rollback
Migração bem-sucedida é migração ensaiada. A sequência oficial de planejamento (create-plan) tem sete passos, e cada um existe por um motivo concreto.
Pré-requisitos antes de tocar na ferramenta
- Instale o M2 conforme os system requirements, espelhando a topologia do M1.
- Backup do banco do M2 logo após a instalação ("Back up or dump your Magento 2 database as soon as possible").
- Acesso de rede garantido entre os bancos M1 e M2.
- Pare a atividade no admin do M1 (exceto gestão de pedidos) antes e durante a migração.
- NÃO inicie os cron jobs do M2 durante a migração ("Do not start Magento 2 cron jobs").
A sequência de go-live
- Revisar extensões — decidir equivalentes/reconstrução.
- Construir e preparar a loja M2 — tema, extensões, integrações.
- Dry run em ambiente de teste (use a flag
-rpara recomeçar quantas vezes precisar). - Iniciar a migração — settings + data.
- Ajustar dados migrados se necessário.
- Atualizar dados incrementais (delta) — captura clientes e pedidos novos criados durante o processo.
- Go-live — cutover.
Por que o delta muda o jogo
O grande valor desse fluxo é permitir congelar o admin do M1 enquanto o storefront M1 continua vendendo. Durante a migração, a Adobe orienta interromper todas as atividades no admin do M1 exceto a gestão de pedidos — envio, faturas e notas de crédito —, enquanto as operações no storefront M1 seguem permitidas. Você roda a migração de data, e os pedidos e clientes que entrarem nesse intervalo são capturados depois pelo modo delta. Isso reduz a janela de indisponibilidade a praticamente zero do ponto de vista do cliente final.
Staging e rollback
Eu nunca faço go-live sem dois itens: um ambiente de staging idêntico à produção, onde o dry run completo é executado, e um plano de rollback com backups do banco feitos imediatamente antes do go-live. Se algo der errado no cutover, você precisa conseguir voltar ao M1 operacional em minutos, não em horas. Aproveite também o cutover para já entrar na nova loja com as práticas de segurança e hardening aplicadas, em vez de deixar para depois.
Conforme a documentação de pré-requisitos da Adobe, durante a migração você deve fazer backup do banco do M2 o quanto antes, garantir acesso de rede entre os bancos M1 e M2 e não iniciar os cron jobs do Magento 2 — em suas palavras, "Do not start Magento 2 cron jobs". A orientação de parar as atividades no admin do M1 (exceto gestão de pedidos) aparece no plano de migração (create-plan).
Fonte: Adobe Experience League
Adobe Commerce ou Magento Open Source: qual escolher
A migração é o momento ideal para revisitar a edição. Adobe Commerce e Magento Open Source compartilham o mesmo núcleo: mesmo template engine, mesma arquitetura de módulos, mesmo fluxo de checkout. A diferença está no que a edição paga adiciona sobre esse core.
| Aspecto | Magento Open Source | Adobe Commerce |
|---|---|---|
| Custo | Gratuito | Licença por GMV/receita anual |
| Hospedagem | Self-hosted (você gerencia) | Inclui infra/serviços gerenciados (Cloud) |
| Segurança/patch | Por sua conta | Patching automatizado + suporte oficial |
| B2B nativo | Não | Sim (company accounts, shared catalogs, negotiable quotes, requisition lists) |
| Segmentação de clientes | Não | Sim |
| Content staging | Não | Sim |
| Visual merchandising | Não | Sim |
Recursos exclusivos de Commerce
Sobre o mesmo core, o Adobe Commerce adiciona B2B nativo (company accounts, shared catalogs, negotiable quotes, requisition lists), customer segmentation, content staging, visual merchandising, suporte oficial Adobe e patching de segurança automatizado. Recursos B2B como Shared catalogs e Negotiable Quotes são oficialmente exclusivos das lojas Commerce configuradas para company accounts.
Uma palavra sobre profiling e o Adobe Commerce Cloud
Vale corrigir um mal-entendido comum: o Blackfire não é um recurso "embutido e ligado" do Adobe Commerce on-premises. Ele aparece como ferramenta de profiling associada ao ambiente do Adobe Commerce on cloud infrastructure, onde há integração documentada para análise de performance, mas seu uso depende de configuração e de assinatura própria do Blackfire. Em projetos Open Source ou on-premises, profiling de performance normalmente é montado à parte (Blackfire, Tideways, New Relic, Xdebug em ambiente de teste).
Conforme a documentação da Adobe, recursos B2B como Shared catalogs e Negotiable Quotes estão disponíveis somente para lojas Commerce configuradas para suportar company accounts — em suas palavras, "available only for Commerce stores configured to support Company accounts".
Fonte: Adobe Experience League
Minha recomendação prática
Para a maioria das lojas B2C de pequeno e médio porte no Brasil, o Magento Open Source entrega tudo o que é preciso — desde que você assuma a responsabilidade de manter segurança e atualizações em dia (justamente o erro que levou ao desastre do M1). Já operações B2B, com catálogos negociados, cotações e múltiplas company accounts, costumam justificar o investimento no Adobe Commerce, porque reconstruir esses recursos no Open Source sai caro e frágil. A boa notícia: como o core é o mesmo, é possível começar no Open Source e migrar para Commerce depois, sem nova re-plataforma.
Perguntas frequentes
Ainda dá para continuar usando Magento 1 em 2026?
Tecnicamente a loja funciona, mas você está sem patches de segurança desde 30 de junho de 2020. Além disso, a conformidade PCI DSS fica comprometida: a Adobe alerta que configurações atreladas a versões de PHP em fim de vida não têm como garantir conformidade PCI, e o M1 roda exatamente sobre PHP morto — o que expõe o lojista a multas e à perda da capacidade de processar cartões. A campanha Cardbleed infectou 2.806 lojas Magento 1 explorando precisamente esse cenário sem patches. Continuar no M1 é assumir um risco financeiro e de segurança que cresce a cada dia.
O Data Migration Tool migra tudo, inclusive o tema da minha loja?
Não. O Data Migration Tool migra dados de banco em massa: catálogo, clientes, pedidos, avaliações e configurações de loja. Ele não migra tema, design, storefront, código de extensões nem arquivos de mídia. Tema e frontend precisam ser reconstruídos do zero, extensões precisam ser portadas ou substituídas por equivalentes M2, integrações precisam ser reimplementadas e a mídia precisa ser copiada manualmente de magento1-root/media para magento2-root/pub/media.
Vou perder meu posicionamento no Google ao migrar?
Não, se você planejar o SEO. A regra é preservar as URL keys sempre que possível e criar redirects 301 para tudo que mudar. No Magento 2, ative 'Create Permanent Redirect for URLs if URL Key Changed = Yes' e prepare um mapeamento de URLs antigas para novas com redirects permanentes server-side (301/308). O Google recomenda manter esses redirects pelo maior tempo possível, geralmente por pelo menos 1 ano, para transferir todos os sinais às novas URLs. Quebrar URLs sem 301 é o erro que mais destrói tráfego em migrações.
Quanto tempo minha loja fica fora do ar durante a migração?
Com o fluxo correto, praticamente nada. Você roda settings e data com o storefront M1 ainda vendendo, congela apenas o admin do M1 (exceto gestão de pedidos), e usa o modo delta para capturar os clientes e pedidos novos criados durante o processo. O downtime real fica restrito à janela curta de cutover (apontar o domínio para o M2). Por isso é essencial ensaiar tudo antes em ambiente de staging com um dry run completo.
Devo escolher Adobe Commerce ou Magento Open Source?
Ambos têm o mesmo core (template engine, módulos e checkout). O Magento Open Source é gratuito e self-hosted, ideal para a maioria das lojas B2C que assumem a responsabilidade de manter segurança e atualizações. O Adobe Commerce é licenciado por receita e adiciona B2B nativo (shared catalogs, negotiable quotes — disponíveis somente para lojas Commerce com company accounts), customer segmentation, content staging, visual merchandising, suporte oficial e patching automatizado. Operações B2B costumam justificar o Commerce; como o core é o mesmo, dá para começar no Open Source e migrar para Commerce depois.
Posso adiantar o cadastro de produtos no Magento 2 antes de migrar?
Não faça isso. Se você cadastra produtos, categorias ou atributos no M2 enquanto a migração ainda não terminou, a documentação da Adobe avisa que podem aparecer avisos de Volume Check, justamente porque você criou no M2 entidades que não existem no M1. O caminho certo é deixar a migração popular o catálogo e só depois fazer ajustes e novos cadastros no M2.
Qual stack o Magento 2.4.8 exige?
A versão 2.4.8 exige PHP 8.3 ou 8.4 (8.1 e 8.2 não são suportados), OpenSearch 2.19 como motor de busca preferido (Elasticsearch 8.17 ainda é suportado on-premises), MySQL 8.4 ou MariaDB 11.4, Composer 2.9.3+, RabbitMQ 4.1 e Varnish 7.6. Para cache e sessão, o Valkey 8 (fork open source do Redis) passou a ser a solução de referência, ao lado do Redis, presente em patches anteriores. A Adobe só dá suporte às combinações listadas na documentação oficial de system requirements.
Referências oficiais
- Data Migration Tool — Migration overview (modos, comandos e ordem) — Adobe Experience League
- Configure the Data Migration Tool (config.xml.dist, map.xml.dist, diretórios) — Adobe Experience League
- Create a Data Migration Plan (passos, cópia de mídia, admin M1 durante a migração) — Adobe Experience League
- Data Migration Tool prerequisites (backup, rede, não iniciar cron do M2) — Adobe Experience League
- Software lifecycle policy (3 anos de suporte + extended; PCI e PHP em fim de vida) — Adobe Experience League
- System requirements (PHP 8.3/8.4, OpenSearch 2.19, MySQL/MariaDB, Composer, RabbitMQ, Valkey) — Adobe Experience League
- Automatic redirects ('Create Permanent Redirect for URLs if URL Key Changed') — Adobe Experience League
- Site Moves with URL Changes (mapeamento, 301/308 server-side, manter redirects >=1 ano) — Google Search Central
- Cardbleed: 3% of Magento install base hacked (2.806 lojas M1, exploit de EOL) — Sansec
- B2B for Adobe Commerce — introduction (Shared catalogs e Negotiable Quotes só em Commerce) — Adobe Experience League
- Hyvä Themes — Technical vision (Tailwind + Alpine; remoção de Knockout/Require/jQuery) — Hyvä Themes